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Discurso do Paraninfo da Turma 2009 do Curso de Administração Pública da UNESP

  19/02/2018
  Atualizado em 06/06/2021



Boa noite! É uma honra e um prazer estar aqui, hoje, vivendo este momento tão significativo para todos. Permitam-me, por favor, uma rápida reflexão e algumas palavras aos formandos. Tomo por epígrafe, de Jorge Luis Borges, uma frase do conto A biblioteca de Babel: “A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas.”

O pai chega à casa pequena e simples, o sol quase se pondo, o peso da jornada sobre os ombros. Lançando-se ao seu encontro, da porta ao portão – expectativa arremessada como a pedra pelo estilingue, rumo ao objetivo – a garotinha é pura e incontida alegria. Num passe de mágica, a fadiga evapora, enxotada pela ternura. Os bracinhos enroscados no pescoço, perninhas suspensas no ar e sorriso aberto, provocam no homem uma euforia que o faz rodopiar três vezes e ao final lançar a menina para cima e pegá-la de volta, ambos rindo, rindo e rindo.

– Eu já sei escrever… Vê! Na folha pautada, arrancada do caderninho de capa cor de rosa, a primeira frase: “Papai eu te amo”. Assim, sem a vírgula.

O efeito foi quase igual ao de quando ela disse “papá” pela primeira vez, antes de dizer “mamã”, sob protestos da esposa, que nesta tarde aguarda o marido a meio caminho da porta, comovida, esperando a sua vez de receber o beijo diário da hora do retorno.

Hoje, aquela loirinha de cabelos anelados e olhos claros é uma das médicas mais competentes e zelosas do principal hospital público da cidade. Ela se formou com mérito na universidade estadual: cirurgiã-ortopedista. Como foram lindos o dia da matrícula e, depois, o da formatura com mérito!

O acidente não fora grave, aparentemente. Mas para ele, a vítima mais afetada, o drama não foi menor somente porque os veículos não apresentavam danos extraordinários e pouco sangue marcava a cena. Ele não conseguia mover as pernas. Não sentia nenhuma dor, mas um medo crescente, quase pavor, tomava conta da sua existência. Seu pensamento o lançava para o futuro: “Será que não poderei mais andar”? No caminho para o hospital, depois de ser socorrido com muita rapidez e eficiência, semi-acordado, ouviu a conversa dos paramédicos, preocupados exatamente com o que ele temia. O trajeto curto e rápido pareceu-lhe interminável. Um filme projetou-se em sua mente, cenas entrecortadas: a proximidade da conclusão do curso de aviador, o casamento marcado, o surfe com os amigos combinado para o fim de semana. Desmaiou. Acordou muitas horas depois, a médica e uma enfermeira ao seu lado:

– Como se sente?

Sua primeira reação foi tentar mexer as pernas. Sentiu que podia. Ia sentar-se quando foi impedido pela enfermeira:

– Cuidado, a cirurgia foi muito delicada…

Ele recostou-se na cama, sorriu, sentiu a vida fluir novamente e olhou para a médica e para a enfermeira cuidadosa, agradecido, antes de adormecer e sonhar, sonhos bons, de uma vida como a de antes.

Embora isso não fosse consciente, ninguém da família, há três gerações, ousava acalentar qualquer tipo de sonho em relação à casa própria decente. O avô e a avó, migrantes, foram direto para a favela quando chegaram à cidade, deixando para trás um pesadelo e encontrando outro pela frente. Lá nasceram os pais, que em seguida passaram a morar de aluguel, um ponto de chegada com que tiveram que se contentar, tão difícil o acúmulo de recursos ou o financiamento para comprar ou construir. Para a enfermeira e seu marido, um vizinho da penúltima casa alugada pelos pais, uma luz se acendeu e de fato não estava no fim do túnel: financiamento subsidiado do material, sistema de mutirão para a mão-de-obra, cadastro sério para escolha das famílias. Tudo organizado e conduzido pela ONG em que o aviador era um dos voluntários mais atuantes, fazendo uso do seu escasso tempo livre. A recompensa dele: subir e descer andaimes, transportar a argamassa no carrinho de mão, arremessar as telhas do chão ao telhado em construção, tudo em profunda comunhão com os homens e mulheres simples, seus parceiros e… claro, fazia questão de entregar algumas chaves e acompanhar a entrada das famílias, atento aos inebriantes sentimentos de conquista,  de ingresso numa vida nova e melhor, ao abrigo de um teto garantido.

Dizia Hegel que “os momentos de felicidade são páginas em branco da História.” Ou seja, aquilo que um indivíduo sente como emoção é algo tão seu, tão íntimo, um quase-tudo durante o momento em que é sentido, mas que é, para o conjunto dos outros homens, o mesmo ou menos que o bater das asas de uma borboleta para os ventos que se movem pelo mundo, às vezes mansos, às vezes terríveis – esses momentos, assim como esse bater de asas, não contam.

Mas a alegria desfrutada por um pai e uma mãe vendo seu filho ou filha se formar numa universidade pública (que se fosse privada não poderiam pagar); o reencontro de um potencial paraplégico com a vida normal, salvo em acidente por socorristas, médicos e enfermeiros competentes, num hospital público bem equipado; a realização do sonho da casa própria, por meio de bem urdido programa habitacional público, realizado em parceria com organizações da sociedade civil constituída por voluntários – todos esses eventos privados, mobilizadores de agradáveis sentimentos íntimos, insignificantes do ponto de vista histórico, são possíveis somente onde e quando existem boas políticas – educacional, de saúde e habitacional, nos casos exemplificados. Essas políticas, por sua vez, não são possíveis sem que existam um Estado e governos comprometidos com as causas da sociedade e, ao mesmo tempo, competentes para encaminhar soluções. De que, fundamentalmente são constituídos o Estado e os bons governos? De pessoas dotadas de idéias e capacidade de articulação e ação.

Entre esses pessoas figuram, indubitavelmente, os bons gestores públicos – que não são, evidentemente, aqueles funcionários que se limitam a ir às repartições insatisfeitos e até mesmo irados, obrigados, apenas para receber a remuneração, não merecida, no final de cada mês, anos e anos a fio. Bons gestores são aqueles, em sua maioria anônimos para a História, que são, entretanto, reconhecidos no ambiente em que atuam, quotidianamente, pela sua fibra;  persistência; força de vontade; capacidade de concepção, de articulação, de ação; pelo envolvimento com causas; pela inquietação inovadora; pela indignação contra as injustiças e contra as desigualdades delas resultantes. Gestores com sentido de missão, para além da acepção weberiana dessa expressão, gestores públicos do tipo de que uma nação como o Brasil precisa, cada dia mais (e Cabo Verde também), para conquistar o seu lugar ao sol na comunidade internacional e para propiciar ao seu povo o que ele merece e é possível conseguir com a riqueza e o potencial à disposição do país.

Momentos de felicidade são páginas coloridas que, pintadas e escritas por muitas e competentes mãos anônimas, reunidas e encadernadas, juntamente com as páginas de chumbo dos momentos de tristeza, compõem o livro da História, entrelaçando o exercício do poder com os íntimos desejos humanos. Cada uma dessas páginas pertence definitivamente ao livro, não se destacando dele nunca: não há felicidade humana, ou tristeza, fora da História. “A História é a realidade do homem. Não existe outra”, diz Ortega y Gasset, para quem “nossa vida é, a todo instante e mais que tudo, consciência do que nos é possível.”

Nem sempre a percepção do possível é imediata e fácil. Não são poucas as ocasiões em que escapam às mãos realizações transformadoras da História, potencializadoras da felicidade, porque aquilo que poderia ser não foi viabilizado, por falta de visão ou por causa da inércia. E por falar nela, na inércia, não custa lembrar uma célebre afirmativa de Epicuro: “O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam.”

Que vocês, agora administradores públicos, prontos para atuar em governos, empresas (próprias ou de outros) ou entidades do terceiro setor, não sejam agentes de mãos inertes, ou de visão curta, preocupados somente com suas próprias páginas por colorir, achando que mudar a História é impossível, que transformar as práticas políticas e qualificar os serviços públicos são sonhos inatingíveis. Abandonem a falsa certeza de que tudo está escrito.

A esta altura, um pedido. Enquanto o patrono ampara, o paraninfo inspira. Se houve algo em mim que  os inspirou e que pode continuar inspirando, gostaria que fossem (se é que existem  em mim a ponto de poder inspirar, de fato) o meu amor pela vida (mesmo sendo eu um pessimista, moderado); o meu respeito às pessoas (independente de quem sejam, do que tenham e do que pensam e defendam); o meu gosto por fazer bem feito o que é da minha responsabilidade (raramente satisfeito); o meu esforço (tantas vezes insuficiente) por ser tolerante, sem me omitir à crítica necessária; a minha inquietude diante do mundo e dos seres viventes e suas relações (inquietude felizmente freada pelo peso das tarefas quotidianas, evitando a loucura); o meu entusiasmo para debater, aprender, ensinar; o meu apego aos desafios para construir bons governos e um país melhor: potente sem prepotência, com menos desigualdade e mais justiça.

Por fim, um alerta. Este dia não foi um ponto de chegada, mas de partida para novas aventuras, em que vocês não serão mais amparados, senão pelos seus conhecimentos, pelas suas convicções, pelas suas habilidades de convivência com os outros, na busca de objetivos individuais e coletivos. Sejam felizes e proporcionem felicidade, tentando sempre,  nos seus espaços concretos de atuação, mudar para melhor a sua história e a História dos homens, esses seres, que todos somos, miúdos, assustados, inseguros, lançados à própria sorte no Universo –  imenso e desconhecido, sem saber porque nem como, aprisionados na vida em comum, tendo a morte por destino último.

Obrigado por terem me tomado por paraninfo. É uma honra sê-lo de uma turma tão qualificada e vibrante como esta, que deixará saudades, certamente. Perdão por tudo que deixei de oferecer-lhes ou proporcionar-lhes enquanto professor ou orientador, por falta de condições,  por omissão ou pura incompetência, mesmo. Voem e que o movimento de suas asas conte muito para um Brasil melhor, tanto no cenário mundial como, e principalmente, para o seu povo sofrido. Construam verdadeiras fábricas de momentos de felicidade! E que elas contem para a História!

Araraquara SP, 18/02/2010

Professor Valdemir Pires





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